LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

Estórias Abensonhadas [Resenha]

02

Seguindo minhas pessoais incursões pelo universo de Mia Couto, falarei agora das minha impressões de leitura do volume de Contos, ou se, assim como Mia, preferirem, “estórias”, intitulado, “Estórias Abensonhadas”.

Em declaração, Clarice Lispector já chegou a afirmar que em sua adolescência, sem repertório crítico que lhe direcionasse leituras, escolhia ao acaso os livros para a ler, de acordo com os títulos que lhe despertavam curiosidade. Eu como um adepto das simples verdades, acredito no ditado popular de que não se deve jugar um livo só pela capa; por outro lado,  contudo, acho sim que devemos  começar seus julgamentos, já pelos títulos e a impressão que estes nos causam. Quantas vezes, assim como a escritora brasileira, me peguei, escolhendo os livros sem informações nenhuma deles ou de seus autores, guiado, unicamente pela estranheza que seus títulos me causavam. Um título bem pensado e bem elaborado é de extrema importância para mim.

Não quero adentrar por demais no conceito formalista do estranhamento, mas tenho que, pelo menos, dizer o quanto de encanto e impacto me causou a aglutinação dos termos estórias, benção e sonho, do título deste volume de contos… Sei que a operação parece simples : abençoada + sonhadas = abensonhadas. É todavia, na simplicidade e na aparente ausência de sofisticação que reside a singela beleza das estórias desse livro. Sobre o título ainda, a adoção do termo “estória” ao invés  de “histórias” ressalta o valor estético do narrativo e do conto popular, e estabelece já de início, uma perspectiva intertextual com o autor brasileiro João Guimarães Rosa.

Publicado em 1994, com exceção de algumas estórias, (abaixo sinalizadas com asterisco)  o livro é na verdade uma reunião de estórias publicadas originalmente no Jornal Público. Não se engane quem achar que pela quantidade de estórias o livro seja um grosso volume, que demande um tempo grande de leitura. As estórias são curtíssimas e a leitura é fluída:

  1. Nas águas do tempo
  2. As flores de Novidade *
  3. O cego Estrelinho *
  4. Na esteira do parto
  5. O perfume *
  6. O calcanhar de Virigílio *
  7. Chuva: a abensonhada
  8. O cachimbo de Felizbento *
  9. O poente da bandeira
  10. Noventa e três
  11. Jorojão vai embalando lembranças
  12. Pranto de coqueiro
  13. No rio, além da curva
  14. O abraço da serpente
  15. Sapatos de tacão alto
  16. Os infelizes cálculos da felicidade
  17. Joãotónio, no enquanto
  18. Os olhos fechados do diabo do advogado
  19. A guerra dos palhaços *
  20. Lenda de Namarói *
  21. A velha engolida pela pedra
  22. O bebedor do tempo *
  23. O padre surdo *
  24. O adivinhador das mortes *
  25. O adeus da sombra *
  26. A praça dos deuses

Como em outros momentos e resenhas, ainda muito voltarei ao universo de Mia Couto, quero dar enfase nesse momento à questão do acima já mencionado, intertexto. Se com o título já se sugere uma relação de parentesco estético entre Mia Couto e Guimarães Rosa… Ler as duas primeiras estórias, serão suficientes, para acabar por estabelecer a concretude dessa relação. Sei que essa relação intertextual entre Mia e Rosa já foi tantas vezes referida, e até certo ponto desgastada, mas ainda assim desejo (re)fazê-la. Pois se de modo geral podemos encontrar paralelo na escrita e no tratamento da palavra, nas duas primeiras estórias desse volume de contos o que o leitor vai encontrar é um intertexto narrativo delas com (respectivamente) “A terceira Margem do Rio” e “A Menina de Lá”.

Não falarei especificamente de cada uma das narrativas, pois os enredos, temas e assuntos são da ordem dos mais variados, unidos unicamente pela poesia da narrativa, e pelo valor mágico da palavra: Em “O Calcanhar de Virgílio” temos a história de uma mulher que se sente incumbida de continuar os trabalhos do marido alcoólatra  ela própria bebendo todas depois que o marido morreu; Em “Noventa e Três” temos o retrato de uma insólita amizade entre um velho, um garoto de rua e um gato; Em Sapatos de Tacão alto temos a história de um másculo homem que toda noite se traveste de mulher para matar as saudades da mulher; Em “A Guerra dos Palhaço” uma profunda fábula sobre os desmandos dos governantes e a manipulação de massa”.

Para terminar, resta dizer apenas que recomendo muito a leitura desse volume; se no entanto, você não quiser dar a mínima importância a minha opinião, sinta-se livre para não lê-lo. Se, contudo, assim como eu e Clarice, você tiver a prática de escolher ao acaso seus títulos, espero que, caminhando pelas prateleiras, você acabe por tropeçar na poesia destas estórias abensonhadas.

O que já se disse:

“São histórias que formam um retrato afetivo e mágico da Moçambique de Mia Couto, onde o fantástico faz parte do cotidiano, e a música reside na própria fala das ruas” [Retirado da contracapa da Edição Brasileira]

“Depois de Terra Sonâmbula estas estórias fazem regressar o imaginário moçambicano pela mão de Mia Couto. Se o romance deste autor moçambicano nos transportou para o universo trágico da guerra, estas breves histórias são flagrantes do renascer do país, depois da assinatura do Acordo de Paz.” [Do site da Editora Caminho]

Em meus Post-it:

Os infelizes cálculos da felicidade

O Homem desta estória é chamado João Noves-fora. Noutras falas: o mestre Novesfora. Homem bastante matemático, vivendo na quantidade exata, morando sempre no acertado lugar. O Mundo para ele estava posto em equação de infinito grau. Qualquer situação lhe algebrava o pensamento. Integrais, derivadas, matrizes: para tudo existia a devida fórmula.

O Cachimbo do Felizbento

Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve demais para se perder na vigente realidade. Toda verdade aspira ser estória. Os fatos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo.

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Publicado às janeiro 26, 2013 por em Resenha, Uncategorized e marcado , .

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