LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

A Biblioteca de Mim

B 16679

Há uns dois anos, durante uma disciplina do programa de pós graduação que então eu realizava, me foi solicitado pelo professor que escrevesse uma espécie de reflexão narrativa sobre a minha trajetória pessoal de leitura. Texto que intitulei na época de “A Biblioteca de Mim”. Pensando, então em como iniciar as publicações desse espaço, resolvi recuperar aquela insipiente tentativa de auto revelação.

A Biblioteca de Mim

O que fica em nós de uma vida de leitura? Que idéia farão de mim aqueles que passarem pela minha estante e num dia de ócio qualquer tentar ver a mim, naqueles objetos que lá estão? Mais do que isso, que idéia faço eu de mim mesmo recuperando as leituras que em vida fiz?

Proibido de entrar no céu, forçava as portas do paraíso com um pé de cabra arrancado a contra gosto de um bode. Pedro Malazarte, impresso na minha memória no mais longe do meu alcance, aquele tramposo errante, figura primordial da aventura sem fim de minhas inúmeras vidas, imprimiu na trajetória tortuosa de minhas leituras, uma ordem confusa, e uma feição de mil faces. Tanto se passou. Tanto foi vivido. Das aventuras em Cordel dos doze pares da França aos épicos heróicos de um livro escrito pelo próprio Deus. Nietzsche ainda não havia matado Deus. Além das histórias havia a confissão da poesia. Quem me dera minha primeira namorada ter sido um porquinho da índia. Foram tantos amores impossíveis: Tristão e Isolda. Romeu e Julieta. Guinevere e Lancelot. Ah Admirável Mundo Novo que se abria. Fui tantos além de mim. Tristão da Cornualha, Lancelot da Bretanha. O Poderoso Chefão de Nova York. O homem que calculava no Oriente. Dava a Volta a Mundo em Oitenta Dias. Das Brumas de Avalon para alem d’Outro Lado da Meia Noite e d’O Silêncio dos Inocentes, Nada durava para Sempre.

Houve uma época em que não sabia direito quem era. Foi uma época de paixões passageiras e início de relacionamentos eternos. Se por momentos o Assassinato no Expresso do Oriente me chocou, O Caso dos Dez Negrinhos me fascinou pela engenhosidade e elaboração. Foi uma época de culto aos grandes Monstros Literários. Não, não me refiro ainda a Joyce, Guimarães Rosa, ou Virginia Woolf. E sim ao Drácula de Bram Stoker, o Frankstein de Mary Shelley. O Dr. Hannibal Lecter de Thomas Harris. Era tanta indefinição pessoal, que era Médico e era Monstro. Foi uma época inteira dedicando as noites de Insônia, as horripilantes imagens de Stephen King: Carry a Estranha, O iluminado, A maldição do Cigano, Cão Raivoso, Jogo Perigoso, A Espera de um Milagre, Eclipse Total, Christine, A coisa. Foi King que me levou até Poe. Os Assassinatos da Rua Morge e O Escaravelho de Ouro me surpreenderam por demais. O Corvo até hoje perturba meu sono. Foi na época em que Fernando Pessoa me salvou. Quem disse que eu precisava ser um, quanto podia ser tantos. Era uma Temporada no Inferno que acabava. Mas da cabeceira de minha cama Rimbaud jamais sairia.

Vieram outras formas de leitura. As imagens poéticas dos inúmeros romances e poemas não perdiam seu lugar no meu fascínio, mas passaram a dividir lugar com o cinema. Passei a devotar verdadeira adoração pela parenta tardia de todas as outras artes, que em relação as suas irmãs era tão nova ainda e já cativava em meu sentimento a mais pura devoção. Ah o cinema. As bonecas de Takeshi Kitano. As espadas voadoras de Ang Lee. As cores de Almodóvar. A realidade irreal de Tim Burton. A violência escrachada de Tarantino. Os enredos envolventes de Wood Allen. O sorriso melancólico de Chaplim… Concebo o cinema como metamorfose da Literatura, que não deixando de existir se apóia em outros suportes técnicos, que não o livro, para se fazer existir.

Cada vez mais conhecia a mim e os sentimentos que tornavam o homem humano. Conhecia a vingança com Medeia, o ciúme com Otelo, a cobiça com MacBeth. Tornava-me adulto e só um sentimento era capaz de falar da velocidade com que as coisas caminhavam: A náusea. Era o Mundo de Sofia que se abria. Então, Nietzsche matou Deus. Numa última e agonizante vontade de parar o tempo voltei-me a infância. Os irmãos Grimm ajudavam-me a conquistar uma infância perdida e que de fato jamais tivera. “Não Peter eu não quero crescer! Viajarei de estrele em estrela junto ao meu pequeno príncipe. Caminharei com Dorothy pela estrada de tijolos amarelos naquela distante terra do nunca, naquela distante terra do sempre. Adormecei nos campos de girassol e jamais acordarei. Pra que obedecer a atitude despótica da Rainha de Copas e do tempo, quando um mundo inteiro de Maravilhas pode ser minha casa.”

Não consegui fugir, ficou tudo pra trás. A infância, fuga da realidade que eu não queria admitir, tão tardiamente conseguida, logo se findava. Perdia a fé na vida.

Da náusea ao sentimento de perda, do sentimento de perda ao tédio, do tédio a necessidade de pertença. Foi quando conheci aquela que seria para sempre minha eterna companheira. Perto do Coração Selvagem da vida a conhecia. Era linda, conseguia me traduzir como poucos antes dela o fizeram; como poucos depois dela o fariam. Nossa relação até hoje é algo assim difícil de dizer em palavras, é como uma Paixão Segundo GH, como uma Água Vive em seu melhor momento. A fé na vida jamais voltou de fato, inteira. Mas depois dela ainda houve outros amores e amantes. Patrick Süssekind, Tomas Mann, Guimarães Rosa, Virginia Woolf, Yukio Mishima, Kawabata.

Olhando com saudade pro passado e para a biblioteca que só pertence a mim, vejo em cada linha lida, em cada imagem abstraída, apenas um rosto: o meu. Retrato do Artista quando Jovem, Retrato do Artista quando Criança, Retrato do Artista quando Velho. Retrato atemporal do homem que sou e fui. Como encarando a um espelho, vejo apenas a mim em constante Metamorfose. Vejo a constituição mais subjetiva de quem sou, que de tanto passar a vida me procurando, me encontro hoje onde não estou. Admirando as muitas vidas que vivi nas páginas de tantos contos, novelas, poesias, e romances, decifro naqueles pergaminhos do alquimista Melquíades, apenas a realidade de mim.

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Um comentário em “A Biblioteca de Mim

  1. rodrygotnk
    janeiro 14, 2013

    Adorei/Adoro a sua poesia! Continue assim e eu mal espero pelas suas resenhas!

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Publicado às janeiro 10, 2013 por em Produções Pessoais e marcado .

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