LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

Terra Sonâmbula [Resenha]

12473-Terra sonambula

EM outra oportunidade, aqui mesmo, já contei como entrei em contato com o Mia Couto, e não voltarei a esse ponto. Aqueles que me leram sabem que efetivamente ele entrou em minha vida justamente com o livro Terra Sonâmbula. Mas até aí, nada demais. Mesmo porque, considerando que  Terra Sonâmbula,  a medida que é traduzido, vem colecionando prêmios pelo mundo, acredito que tem sido ele o primeiro contato de muita gente com o Mia.

Publicado inicialmente em 1992, Terra Sonâmbula ganhou o Prêmio Nacional de ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) em 1995, e em 2002 recebeu o “Noma African Awards”, sendo considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX.

Apresentação1

Terra Sonambula é um romance maravilhoso. A narrativa se desenvolve em duas instâncias. Em primeira instância, em terceira pessoa, têm-se a história de dois sobrevivente da guerra, (Tuahir e o garoto Muindinga) que acabam, por acaso, encontrando uma série de cadernos, espécie de diário que rememora para os sobreviventes-leitores os dias passados durante a guerra. Assim, a história da guerra é reconstruída a partir da narrativa de Kindzu, dono e escritor dos cadernos encontrados, numa segunda instância narrativa (em primeira pessoa) se desenvolvendo dentro da outra e primeira narrativa.

Enquanto Muidinga e Tuahir lutando pela sobrevivência vivem a desolação da terra destruída, após a guerra; o relato de Kindzu vai revelando aos leitores (personagens e nós) os enredos que levaram  ao desfecho conhecido de toda guerra. A história de Tuahir e Muindinga é o epílogo, não vivido e vivente de Kindzu.

Com uma trama e estrutura elaboradíssima, o romance de Mia, por isso apenas, já mereceria respeito e deferência. Não obstante, ele não se resume apenas nessa qualidade. Dono de uma linguagem já tantas vezes referenciada, e com razão, muito reverenciada, a história é contada sob a ótica do maravilhoso e do poético.

Terra Sonâmbula não sendo um relato de viagem é essencialmente um livro sobre viagem; viagem aqui entendida enquanto um vocábulo plural, patente de múltiplos significados, e desdobrável e reconhecível em todos os grandes temas abordados pelo romance. O que fica da liberdade almejada, da luta pela sobrevivência, da trajetória de iluminação e auto-conhecimento, senão a própria viagem. Viagem essa, em que o que mais mais importa não é nem aonde se vai chegar, mas a própria jornada em si, e a experiência reveladora pelos mistérios da palavra. Mesmo porque, “o que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.” E para aqueles que quiserem junto com Tuahir, Muindinga e Kindzu caminhar, preparem-se para o encontro com uma miríade de personagens, que por essa mesma estrada caminham. Surendra, Virgínia, Farida, Siqueleto. E só pra terminar, uma última coisa lhes confesso. “Eu sei que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada.

O que já se disse:

“É um romance em abismo e esperança, escrito numa prosa poética. Mia Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula.” [Retirado do Blog da Editora Nadjira]

“Ancorado em cuidadosa carpintaria poética e fabular, Terra Sonâmbula é uma verdadeira aula sobre a velha arte de contar histórias.” [Retirado da contracapa da Edição Brasileira]

Em meus Post-it:

1

Minha mãe saia com a enxada , manhã cedinho, mas não se encaminhava para terra nenhuma. Não passava das micais que vedavam o quintal. Ficava a olhar o antigamente. Seu corpo emagrecia. Em pouco tempo, aquela sobra ia se tornar do tamanho de toda a terra.

2

– Vês, Kindzu? Do outro lado fica a minha terra.
E ele me passava um pensamento: nós, os da costa, éramos habitantes não de um continente mas de um oceano. Eu e Surendra partilhávamos a mesma pátria: o Índico. E era como se naquele imenso mar se desenrolassem os fios da história, novelos antigos onde nossos sangues se haviam misturado. Eis a razão por que demorávamos na adoração do mar: estavam ali nossos comuns antepassados, flutuando sem fronteiras. Essa era a raiz daquela paixão de me encaseirar no estabelecimento de Surendra Valá.
– Somos da igual raça, Kindzu: somos índicos!

3

– Que desenhos são esses?, pergunta Siqueleto.
– É o teu nome, responde Tuahir.
– Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O velho Siqueleto armaneja uma faca.

[…]

Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
– Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma semente.

4

– Mas, mamã Vírgínia: por que não gosta desta terra?
– E quem te disse que não gosto?
Era por razão desse amor que ela queria partir. Porque a visão daquela terra, em tais desmandados maus tratos, era um espinho de sangrar seus todos corações. E suspirava, em imperfeita certeza: quanto tempo demora o tempo! Depois, dedo cruzando os lábios em ordem de segredo, conduzia Farida pelo corredor. Queria que a menina contemplasse o vestido verde, pendurado, pronto, sem nenhuma ruga.
– É para a viagem!
E sorria, alegre desse mais tarde, consoante o sonhado. Ficava na janela olhando o país que inexistia, desenhado em geografia da saudade. Tanto esmolou a Deus um outro lugar que ela se foi fazendo remota e, aos poucos, Farida receou que sua nova mãe nunca mais se acertasse. Sobre velhas fotografias, com um lápis, a velha portuguesa desenhava outras imagens. Às vezes, recortava-as com uma tesourinha e colava as figuras de umas fotos nas outras. Era como se movesse o passado dentro do presente:
– Olha vês? Este é meu tio. Foi quando ele veio cá visitar-nos.
Um tal parente jamais estivera em África. Mas Farida nem ousava desmentir. As fotos recompostas traziam novas verdades a uma vida feita de mentiras.

Certa vez, Virginha levou a adotiva para o quintal e ordenou que se sentassem na grande sombra da mangueira. Ela sempre mostrou temor pelas cobras que se agradam dos doces troncos da árvore. Naquele momento, parecia ter esquecido esse perigo. Lentamente, a velha desdobrou os tempos, contando episódios de sua vida. Demorou dias, em detalhes. A velha mirabolava?
– Por que me conta tudo isso, mamã Virgínia?
– Porque quero que me passes a escrever.
– Escrever?
Era. Farida deveria enviar-lhe cartas, falseando autorias, fingindo o longe. Foi o que passou a fazer, se entretendo a ser, de cada vez, um diferente familiar. Pôde imaginar quanta bondade estava criando. Virgínia lia as cartas com aquele soluço que é o tropeço do choro. Farida escutava em tal embalo que se desconhecia autora da missiva. Ou era a velha que inventava, refazendo a irrealidade do escrito?

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Um comentário em “Terra Sonâmbula [Resenha]

  1. rodrygotnk
    janeiro 19, 2013

    Adorei a sua resenha! Extremamente completa! Continue assim!

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Publicado às janeiro 19, 2013 por em Resenha, Uncategorized e marcado , .

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