LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

Vozes Anoitecida [Resenha]

1987 - Vozes Anoitecidas [Contos]

Ainda não publicado no Brasil o Début de Mia Couto no Universo da prosa é esse Vozes Anoitecidas. Três anos antes Mia já havia lançado o seu (de fato primeiro livro) Raiz de Orvalho. Esse volume de Contos era, então, a primeira incursão do autor que acabou por se destacar muito mais no particular universo da prosa do que propriamente no universo da poesia, que o revelou. [Assertiva problemática dada a dificuldade de separação dos universos da prosa e da poesia em autores como Mia Couto]

Aqui nesse mesmo espaço já tive a oportunidade de resenhar outro livro de Contos do autor, o bem mais conhecido, Estórias Abensonhadas. Com alguns elementos que o diferem desse já anteriormente resenhado, mais com muitos elementos que o torna filho do mesmo criador, Vozes Anoitecidas obriga-me a me ater às diferenças.

Tenho receio de estar me tornando repetitivo, já que nos últimos dias venho, por assim dizer, tomando doses cavalares da poesia de Mia Couto; daí que intencionalmente decidi proceder nessa resenha de maneira destinha da que procedi na já mencionada resenha do Estórias Abensonhadas. Lembro-me, na época (como se fizesse tanto tempo assim) de ter me escusado de falar de cada uma das narrativas do volume, mesmo porque o número de histórias daquele é muito superior ao deste. Por isso resolvi, deste, comentar cada um dos contos.

Faço um adendo antes de prosseguir. Se você que me ler tem por interesse o conhecimento da literatura para além da sua fruição, e que sendo um leitor (quero evitar a palavra crítico, já que para mim tolo leitor o é) com objetivos específicos de conhecimento da literatura enquanto manifestação social, não deixe de ler os “Prefácio à edição portuguesa” de 1987, escrito pelo poeta José Craveirinha e “Como se fosse um prefácio” da edição de 1986 de Luz Carlos Patraquim.

1-A fogueira

A história de um casal que, ante a ausência de qualquer perspectiva de futuro, antevendo a morte (única certeza que têm) começam a preparar a sepultura que fatalmente à um dos dois abrigará.

2-O último aviso do corvo falador

A história de um corvo que segundo contam predizia o futuro, e do seu tradutor, Zuzé Peraza. Retrato crítico e jocoso das crenças populares, com um final mágico e simbólico.

3-O dia em que explodiu Mabata-bata

Narrativa que começa com fatos aparentemente inconcebíveis para a lógica racional (de um boi que explode) e que quando ganham status de realidade verossímil e explicável, imediatamente se torna surreal.

4-Os pássaros de Deus

A história narra o encontro de Ernesto Timba com um pássaro e os devotados cuidados que este começa ter para com a criatura. Narrativa de fundo analítico sobre as linhas que separam a crença, da religião e da loucura.

5-De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro

Breve e sintética Biografia do relacionamento do intitulado Ascolino e sua esposa, pela ótica do empregado do casal Vasco.

6-Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?

O relato confessional do marido de Carlota Gentina, e seu também assassino.

7-Sade, o Lata de Água

Poética e feérica metáfora crítica à violência contra a mulher.

8-As baleias de Quissico

Narrativa que guarda com conto “O dia em que explodiu Mabata-bata” muita semelhança. Aqui também temos a estranha inversão entre o real e o fantástico, onde o mágico é mais plausível e o real (pelo contesto de guerra) in-crível.

9-De como o velho Jossias foi salvo das águas

Estória mítica sobre os ciclos de seca e enchentes e o destino do intitulado Jossias atrelado a eles.

10-A história dos aparecidos

Critica velada a governantes corruptos. O aparecimento de (des)desaparecidos, que tira do eixo toda uma aldeia que entra em debate para decidir se os recém chegados estariam vivos ou mortos, estopim em que se desvelam escusas administrações governamentais.

11-A menina de futuro torcido

Narrativa que eu mais gostei do volume. Não sei dizer o porquê, mas imagino que seja pelo misto de ingenuidade e obsessão do Joseldo Bastante que acaba por encaminhar sua filha, a Filomeninha para um fim trágico.

12-Patanhoca, o cobreiro apaixonado

Hermética narrativa onde se embaralham os mais diversos temas: da eutanásia a xenofobia.

________________________

Não intendo completamente os motivos que justificam o fato desse livro ainda não ter sido publicado no Brasil, já que sendo o primeiro livro de contos do autor ele mereceria mais destaque do que aquele que teve até agora.  Me inquirindo sobre uma possível justificativa, encontro apenas uma possível explicação. O motivo por mim imaginado está justamente naquilo em que essas histórias diferem dos outros livros (lidos até o momento) do autor. De uma carga simbólica muito mais aflorada, a leituras dessas narrativas se dá de maneira bem mais compassada que as demais, por isso acredito que esse volume não tenha ainda atingido volume de leitor que justifique sua publicação, ou que lhe garanta futuro público aqui entre nós. Uma pena.

O que já se disse:

“Histórias que nos são contadas numa língua surpreendente, o nosso Português, em plena tarefa de autocriação: usando as regras básicas que a língua tem para criar palavras novas e usando as “velhas” em contextos inesperados. Mia Couto propõe-nos um caminho de polissemias e libertação emocional, um verdadeiro caminho em que nos despojamos do nosso limitado eu, caminho que conduz ao outro e por isso nos enriquece”. [Do blog Grupo poético de Aveiro]

Em meus Post-it:

“Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos.”

“Quem quiser apreciar a beleza de um pássaro não pode olhar as patas. Os pés das aves guardam o seu passado escamoso, herança dos rastejantes lagartos”.

“Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou Muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências.”

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2 comentários em “Vozes Anoitecida [Resenha]

  1. Silva Fernandes
    outubro 22, 2013

    apenas para fazer um reparo no texto que aqui foi apresentado…no conto o ultimo aviso do corvo falador, o personagem principal e’ Zuzé Paraza e nao “Zuzé Peraza”, com acima apresentaram.

    • maukunx
      outubro 22, 2013

      Obrigado pelo comentário e pela correção Silvia. Seja sempre bem vinda para novas colaborações como essa.

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Publicado às janeiro 29, 2013 por em Resenha, Uncategorized e marcado , .

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