LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

E se Obama fosse Africano? [Resenha]

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Intencionalmente, quando elaborava meu cronograma pessoal de leitura, reservei para ocupar o espaço da última obra lida este volume, por acreditar que de certa forma ele se prestaria com justeza a tarefa de encerrar este momento Mia Couto do meu projeto de viagem pelos mares lusófonos da literatura. Acreditava eu, com as parcas informações que então tinha sobre essa obra, que, seria ela destoante do restante da obra de Mia Couto, visto que o seu caráter ensaístico, (imaginava eu) se chocaria com a atmosfera mágica, lúdica e onírica dos contos e romances de Mia. Ledo engano.

Entendo que nem todos possam vir a gostar dessa obra, o que de modo algum foi o meu caso, que a devorei numa velocidade que ultrapassou em muito o ritmo de leitura dos romances e volumes de contos. Admito sim, que meus interesses pessoais e específicos em entender a literatura como um movimento de amplitudes sociológicas, e não apenas do ponto de vista da produção e/ou da recepção da obra literária, tenham sido grandes motivadores dessa leitura.

Ao leitor curioso e diferente de mim que não tenha as ambições que acima revelei, recomendo que se quiser entender a razão desse curioso título, vá ao último artigo que integra esse volume e leia apenas esse texto publicado por Mia em época da Eleição de Obama como presidente do Estados Unidos.

E se Obama fosse Africano é uma obra constituída por Textos de cunho reflexivo e de investigação científica e filosófica, abordando as mais variadas esferas do conhecimentos. Do universo histórico e sociológico, passando pelo político e econômico, até o linguístico e literário. E o que deve ficar claro é que, como em Mia nada é estanque e unilateral, os ensaios estão impregnados do olhar particular do escritor, suas lembranças; anedotas e episódios de sua vida que dão aos ensaios o colorido tom de crônicas.

Deixo de cada um dos texto um gostinho da contundência e da agudeza de pensamento dessas interinvenções de Mia no Mundo.

Nota introdutória: O guardador de Rios

“Tal como o anterior Pensatempos, este não é um livro de ficção. Os textos que aqui se reúnem cumprem a missão de intervenção social que a mim mesmo me incumbo como cidadão e como escritor. Com a excepção do artigo sobre a eleição de Obama, todos os restantes textos foram concebidos para alocuções a serem proferidas em encontros e colóquios dentro e fora de Moçambique.”

1. Línguas que não sabemos que sabíamos

 A palavra de hoje é cada vez mais aquela que se despiu da dimensão poética e que não carrega nenhuma utopia sobre um mundo diferente.

Os autores africanos que não escrevem em inglês (e em especial os que escrevem em língua portuguesa) moram na periferia da periferia, lá onde a palavra tem de lutar para não ser silêncio.

É verdade que muitos escritores em África enfrentam problemáticas específicas, mas eu prefiro não tomar de empréstimo essa ideia de África como um lugar único, singular e homogéneo. Há tantas Áfricas quantos escritores, e todos eles estão reinventando continentes dentro de si mesmos.

2. Os sete sapatos sujos

Quer dizer, África não está só perdendo o seu próprio presente: está perdendo o chão onde nasceria um outro amanhã.

Nós fomos a reboque destas preocupações de ordem cosmética. Estamos reproduzindo um discurso que privilegia o superficial e que sugere que, mudando a cobertura, o bolo passa a ser comestível. Hoje assistimos, por exemplo, a hesitações sobre se devemos dizer “negro” ou “preto”. Como se o problema estivesse nas palavras, em si mesmas. O curioso é que, enquanto nos entretemos com essa escolha, vamos mantendo designações que são realmente pejorativas como as de “mulato” e de “monhé” (embora a etimologia deste último termo não seja, à partida, uma desconsideração).

Sou de um tempo em que o que éramos era medido pelo que fazíamos. Hoje o que somos é medido pelo espectáculo que fazemos de nós mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra. O CV, o cartão de visitas (cheio de requintes e títulos), a bibliografia de publicações que quase ninguém leu, tudo isso parece sugerir uma coisa: a aparência passou a valer mais do que a capacidade para fazermos coisas.

Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a subindústria televisiva nos vêm dizer não é apenas “comprem”. Há todo um outro convite que é este: “sejam como nós”. Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha de sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.

A minha mensagem é simples: mais do que uma geração tecnicamente capaz, nós necessitamos de uma geração capaz de questionar a técnica. Uma juventude capaz de repensar o país e o mundo. Mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer perguntas.

3. Rios, Cobras e Camisas de Dormir

A Biologia é um modo maravilhoso de emigrarmos de nós, de transitarmos para lógicas de outros seres, de nos descentrarmos. Aprendemos que não somos o centro da Vida nem o topo da evolução. Aprendemos que as bactérias são seres sofisticados que fizeram mais do que nós, espécie humana, pela existência da Terra como um organismo vivo.

4. Sonhar em Casa

Deve ser dito (como uma confissão à margem) que Jorge Amado fez pela projecção da nação brasileira mais do que todas as instituições diplomáticas juntas. Não se trata de ajuizar o trabalho dessas instituições, mas apenas de reconhecer o imenso poder da literatura.

Em minha casa, meu pai — que era e é poeta — deu o nome de Jorge a um filho e de Amado a um outro. Apenas eu escapei dessa nomeação referencial. Recordo-me de que, na minha família, a paixão brasileira se repartia entre Graciliano Ramos e Jorge Amado. Mas não havia disputa: Graciliano revelava o osso e a pedra da nação brasileira. Amado exaltava a carne e a festa desse mesmo Brasil.

5. O Incendiador de Caminhos

Durante toda a infância e adolescência da nossa espécie, a nossa primordial vocação foi a caça. Daí a necessidade intrínseca e constante de partir, vasculhar, converter o espaço em território de colecta e de perseguição da presa. A ligação ao lugar sempre foi provisória, efémera, durando enquanto duravam as estações e a abundância. Nós não sabíamos tomar posse. E não sabíamos tomar posse da terra com receio, talvez, de sermos possuídos pela terra. Sobrevivemos porque fomos eternos errantes, caçadores de acasos, visitantes de lugares que estavam ainda por nascer.

6. O planeta das Peúgas Rotas

As palavras moram tão dentro de nós que esquecemos que elas têm uma história. Vale a pena interrogar a palavra “pessoa” e é isso que farei, de modo simples e sumário. A palavra “pessoa” vem do latim persona. Esse termo tem a ver com máscara, tem a ver com Teatro. Persona era o espaço que ficava entre a máscara e o rosto, o espaço onde a voz ganhava sonoridade e eco.

7. Quebra Armadilhas

A poesia é um modo de ler o mundo e escrever nele um outro mundo. Buscar iluminação na voz de um poeta já é um primeiro quebrar de armadilhas.

Quando Ho Chi Minh saiu da prisão e lhe perguntaram como conseguiu escrever versos tão cheios de ternura numa prisão tão desumana ele respondeu: “Eu desvalorizei as paredes”. Essa lição se converteu num lema da minha conduta.

8. Encontros e Encantos – Guimarães Rosa

Eu já bebia na poesia um gosto pela desobediência da regra, mas foi com o autor da Terceira margem do rio que eu experimentei o gosto pelo namoro entre língua e pensamento, o gosto do poder divino da palavra.

9. Dar tempo ao futuro

O autor insurge-se contra a hegemonia da lógica racionalista como modo único e exclusivo de nos apropriarmos do real. A realidade é tão múltipla e dinâmica que pede o concurso de inúmeras visões. Em resposta ao to be or not to be de Hamlet o brasileiro avança outra postura: “Tudo é e não é”. O que ele sugere é a aceitação da possibilidade de todas as possibilidades: o desabrochar das muitas pétalas, cada uma sendo o todo da flor.

10. O Futuro por Metade

O que é verdade é que, para milhares de africanos, vale a pena saltar sobre o abismo. Isto quer dizer o quê? Que estamos dando razão ao chamado afropessimismo? Que a Europa e a América são terras de bem-estar essencial e o nosso continente está entregue à decadência? Na realidade, a imagem que chega da fronteira de Ceuta não veio sozinha. Chegaram, quase ao mesmo tempo, imagens de Nova Orleans inundada pelo furacão Katrina. Essas imagens revelavam um universo de miséria inqualificável, e denunciavam a paralisia da maior potência do planeta perante um pedaço de Terceiro Mundo encravado na sua própria garganta. Outras imagens chegavam da Europa. E mostravam uma França doente, uma nação pegando fogo perante a incapacidade de integrar e dignificar os pobres que ali chegavam como construtores de riqueza alheia.

11. As outras Violências

Martin Luther King dizia: “Mais grave que o ruído causado pelos homens maus é o silêncio cúmplice dos homens bons que aceitam a resignação do silêncio”. A vocês que recusam esse silêncio, quero agradecer por esta iniciativa.

12. A Última Antena do Último Inseto

 Na campa, figura uma inscrição em ronga — Lirandzu a li lalheki (“O amor não termina mais”).

13. Despir a Voz

Certamente o rap e o hip hop tiveram origem em África e agora estão regressando, alterados e americanizados. Nos Estados Unidos, o rap e o hip hop nasceram da contestação política e social do sistema norte-americano. As suas letras constituíam, nesse tempo, uma crítica radical com preocupações sociais profundas. A indústria discográfica alterou profundamente esse carácter irreverente do rap. Recuperou as músicas, esvaziou as letras, mascarou os artistas e substituiu a crítica social por um estereótipo feito de adereços exteriores. A imagem agressiva e intimidadora das gangs de rua passou a ser a sua marca dominante. A celebração da violência e do dinheiro fácil passou a ser constante. As mulheres passaram à categoria de bitches e hos (as duas palavras querendo dizer “prostitutas”) e os homens converteram-se em niggers e dogs. A poesia das canções degradou-se na rima fácil que coisifica a mulher, glorifica a violência e impõe uma imagem distorcida dos jovens negros dos Estados Unidos.

14. Luso-Afonias – A Lusofonia entre Viagens e Crimes

Num balanço da aplicação do lema de governação Por um futuro melhor a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era: “Sente que a sua vida está a melhorar?”. Um cidadão respondeu assim: “Está a melhorar, sim, senhor. Mas está a melhorar muito mal”.

15. O Novelo Ensarilhado

Todos trazemos escrito um livro e esse texto quer-se impor como nossa nascente e como nosso destino. Se existe uma guerra em cada um de nós é a de nos opormos a esse fado de estarmos condenados a uma única e previsível narrativa.

16.E se Obama fosse Africano

Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria de esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbábue, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões.

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Publicado às janeiro 31, 2013 por em Resenha, Uncategorized e marcado , .

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