LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

O Último voo do Flamingo [Resenha]

08

Os momentos que antecederam a escrita dessa resenha foram marcados por um reencontro. Um reencontro virtual, mas ainda assim, suficiente para acabar um pouco com as ausências que sentia de uma pessoa, para mim, tão querida. Conversando com ela, que é especialista em Literatura Italiana, revelei para si o desejo que tinha de começar a ler o Ítalo Calvino, autor que até hoje nunca li… Sabendo das minhas predileções literárias, ela teceu entre o autor italiano e o colombiano Gabriel Garcia Marques, um comentário que resgato agora para d’O Último voo do Flamingo começar falar: “As obras de ambos [Ítalo Calvino e Gabriel Garcia Marques] são permeadas de questões históricas, ao mesmo tempo que sublimadas pelo fantástico”.

Inicio com essa assertiva, não somente pelo fato de minha memória estar aguçada pela recente conversa, mas também por achar que ela pode se aplicar muito bem a grande parte da obra de Mia Couto, e traduzir perfeitamente a relação entre realidade e sonho, história e ficção, fantasia e crítica social que sustenta a narrativa d’O Último voo do Flamingo.

Da porção da obra do moçambicano que conheço até o momento, O Último voo do Flamingo é a incursão mais radical de Mia pelo universo do fantástico; não que o fantástico não se faça presente em certa medida em todos os outros romances  até o momento lidos, o que acontece em O Último voo é a radicalização dessa experiência, e/ou experimentação.

Com momentos na narrativa que beiram a surrealidade ou, (se preferirem a irrealidade); sem com isso, perder ao fundo o painel de crítica social e política, O Último voo do Flamingo inaugurou para mim além do radicalismo no tratamento do fantástico, um outro aspecto até então não muito presente  na obra de Mia Couto, o humor. Não estou com isso dizendo que  é um livro que vai lhe arrancar gargalhadas, mas por diversos momentos o leitor será obrigado a esboçar aquele sorriso ligeiro que somente a sagacidade dos humores mais inteligentes podem causar.

Mandado para a vila de Tizangara, o delegado militar da ONU, Massimo Risi, é incumbido da missão de descobrir o que há por trás dos estranhos acontecimentos em que soldados explodem deixando para trás nada além dos seus sexos. Nessa situação insólita, logo se verá envolvido nas tramas de um lugar esquecido por Deus, e ignorado pelos governantes…

Os momentos mais cômicos ficam por conta do caricato administrador Estêvão Jonas e sua mulher Ermelinda. Os mais líricos ficam por conta de Suplício, pai do tradutor-narrador, de Temporina e da prostituta Ana Deusqueira.

Enfim, O Último voo do Flamingo é um romance polifônico; onde, para além da voz narrativa que guia, traduz e organiza  para o leitor os acontecimentos, é em suma, contado a partir de diversas vozes de relatos orais, de documentos oficiais e depoimentos gravados por Massimo, que se sobrepõem para compor o todo do relato narrativo.

O que já se disse:

O último voo do flamingo fala de uma perversa fabricação de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos. O avanço desses comedores de nações obriga-nos a nós, escritores, a um crescente empenho moral. Contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos, contra os que têm as mãos manchadas de sangue, contra a mentira, o crime e o medo, contra tudo isso se deve erguer a palavra dos escritores. [Das palavras proferidas por Mia Couto na entrega do Prêmio Mário António, da Fundação Calouste Gulbenkian, em 12 de junho de 2001]

Em meus Post-it:

1

Mas o administrador já ia de vela e viagem. E prosseguia: que essa Ana era uma mulher às mil imperfeições, artista de invariedade, mulher bastante descapotável. Quem, senão ela, podia dar um parecer abalizado sobre a identidade do orgão? Ou não era perita em medicina ilegal?

[…]

Ao menos faça um resumo. Aproveita para introduzir… quer dizer, para explicar a nossa Deusqueira.

2

– Cortaram esta coisa do homem ou vice-versa?

3

E agora, por não-consequência, eu partia para encontrar meu pai. Onde ele pairava? Se mantinha ali nos arredores do nosso distrito, incapaz do longe, inapto para o perto?

4

O lugar não era distante e eu viajara mais lembranças que quilômetros. Desta vez, eu vinha quase sem mim, parecia um  desqualquerficado.

5

O moço não era um fulano, nem um indivíduo. Assim, nem nome nenhum lhe foi posto. Valia a pena desperdiçar um nome humano num ser de que se duvidavam as propriedades?

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Publicado às fevereiro 10, 2013 por em Resenha, Uncategorized e marcado , .

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