LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

A Varanda do Frangipani [Resenha]

09

Desde que escrevi minha última resenha que uma ideia me perturba. (Antes de continuar queria esclarecer que parte dessa resenhar escrevi a quase 20 dias quando acabei de ler a Varanda de Frangipani, mas por conta de alguns problemas somente hoje consegui voltar a ela) Fiquei preocupado com fato de ter, em um momento do texto, dito que tentaria “enxergar a fórmula residual” a partir da qual Mia Couto havia elaborado seu romance. O que, depois relendo, me incutiu a preocupação foi justamente o trecho de minha afirmação que explicito entre aspas, acima, numa autocitação… O fato é que me preocupei justamente em ser mal interpretado, e minha afirmação ser lida como uma denuncia a Mia Couto, como um escritor de fórmulas apenas, o que seria uma injustiça sem tamanho…

Não era esse o meu intuito, e se alguém assim me leu, peço desculpas e aqui ratifico o dito.

Fiquei perturbado com essa questão o dia inteiro enquanto lia A Varanda do Frangipani, o que  de certa forma me fez pensar no direcionamento que daria a essa resenha. Para que entendam completamente a maneira como apresentarei esse romance de Mia, preciso dizer ainda, que enquanto vou terminando a leitura da obra do Mia Couto, estou já iniciando a leitura do meu Desafio Literário do mês de fevereiro, O Xangô de Baker Street de Jô Soares. Não falarei sobre essa leitura aqui, mesmo porque guardarei minhas observações para momento futuro. Quero apenas dizer que influenciado pelo pastiche que Jõ Soares apresenta, nesta obra, sobre o gênero romance policial, resolvi justamente apresentar A Varanda de Frangipani como um romance policial às avessas, ou num vocábulo mais apropriado para Mia, transfigurado; onde as figuras do sagaz detetive, da vítima e do assassino (vilão) se confundem e se misturam, turvando as fronteiras que separam um do outro. Em outras palavras, resolvi apresentar essa obra do escritor moçambicano como um romance de gênero criado a partir de fórmulas fixas, e não obstante, inovador.

A primeira grande estranheza provocada por esse romance de Mia Couto tem origem na peculiaridade do seu narrador… O narrador é um morto. Sei que alguns de vocês já se anteciparão a minha escrita deficitária e sei que já recordam (quem sabe até menosprezando esse que vos escreve) da figura do ilustre Brás Cubas. Não, não me esqueci da criação do Bruxo mor da literatura brasileira; mas é que a despeito das possíveis marcas de semelhanças que possam ser encontradas entre o narrador do Memórias póstumas… e d’A Varanda…, e uso a condicional, mesmo porque não fiz questão nenhuma de procurá-las, o que saltam aos olhos são justamente as diferenças. Diferenças não só no plano do discurso, como também nas explicações que justifiquem a narração vinda do outro plano.

Ermelindo Mucanga é um xipoco, um fantasma, que logo no início da narrativa assume o corpo de um investigador para tentar impedir que o seu próprio corpo fosse removido de onde fora enterrado, sob o fragipani. Izidini Naíta fora incumbido, por seus superiores, de investigar o assassinato de Vasto Excelêncio, administrador do isolado asilo de São Nicolau, cenário do crime, e espaço onde se desenrola todos os acontecimentos do romance. Poucos são os velhos de ainda habitam o asilo, mas cada um deles é suspeito do crime.

Todos os clichés típicos do gênero policial investigativo estão presentes em A Varanda do Fragipani: o suspense, os interrogatórios que se somam para composição dos desfecho final e resolução do crime, a pluralidade de suspeitos, etc, etc… Todavia, como já o disse, apesar do uso da fórmula engessada do gênero de investigação, o que predomina e se imprimi no leitor é justamente a sensação do novo, e do transcendente, daquilo que está para além da própria tipificação. Cito como exemplo das alterações na estrutura do gênero a inversão que ocorrem em relação ao busca pelo culpado. Em A varanda do Fragipani, todos os suspeitos, ao invés de se proclamarem inocentes, como era de se esperar, todos reivindicas a autoria do crime. E no lugar do mentiroso, é quem diz a verdade que o detetive tem que encontrar.

O asilo de São Nicolau, espaço de desenvolvimento dos fatos, funciona na obra como uma espécie de metonímia de toda a Moçambique do pós guerra. Diga-se de passagem, um recurso bastante explorado por Mia em muitos de seus livros. Os espaços físicos, por Mia apresentados, sempre podem ser lidos como uma metáfora de todo o contexto sócio cultural de Moçambique. Assim é com a vila de Matimati em Terra sonâmbula, com a ilha de Luar do chão de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, com a distante Kulumani de A confissão da leoa, com a esquecida Tizangara de O último voo do flamingo, com a extraordinária Vila Cacimba de Venenos de Deus, remédios do Diabo. Um tom, contudo acrescenta-se a essa relação metonímica na obra A varanda do Fragipani, a nota da claustrofobia e insustentabilidade.

O que já se disse:

Mesmo não sendo um livro tão recente, este romance de Mia Couto, publicado em 1996, merece nossa atenção. Afinal, a obra de arte (no caso, literária) não tem idade ou validade; ela empreende o arrebatamento de quem se disponibiliza a recebê-la sem se ater à cronologia de uma dada época, causando espanto e incitando belos e fundamentais momentos de questionamento. Obviamente, uma obra de fato não se restringe ao elogio acadêmico ou ao sucesso comercial, nem se detém num aglomerado de palavras vazias, fúteis, de simples entretenimento; é aquela que possibilita a abertura ao pensar, que convoca para a tensão de caminhar rumo ao inalcançável, fazendo-nos lembrar de nossa perene condição de habitantes da liminaridade entre vida e morte, ser e existir. [Fábio Santana Pessanha, do site:Educação Pública]

Em meus Post-it:

1

Eu já sabia: a velhice não nos dá nenhuma sabedoria, simplesmente autoriza outras loucuras.

2

A morte não é o fim sem finalidade?

3

Como diz o velho Navaia: nós nada descobrimos. As coisas, sim, se revelam.

4

Antes já tinha deitado minha voz no silêncio. Agora, calo as mãos.

5

Orava? Falava com Deus? Ou simplesmente adiava o gosto de viver?

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Um comentário em “A Varanda do Frangipani [Resenha]

  1. Beto
    fevereiro 9, 2015

    Olá. Havia pensado na analogia que podia ser feita entre o narrador “xipoco” de A varanda do frangipani e o “defunto autor”, narrador e protagonista do romance machadiano Memórias póstumas de Brás Cubas.
    No entanto, além disso, na condição de pré-vestibulando da fuvest, me ative sobretudo a outra analogia. Gostaria de saber, inclusive, talvez, a sua opinião a respeito.
    É notável na literatura de Mia Couto(mas, no caso, precisamente na obra cuja resenha se encontra aqui) a presença da tradição moçambicana, as tradições dos povos africanos pré-coloniais, como, sobretudo, o animalismo, a religiosidade. E, neste contexto, o autor indica-nos o quanto a “modernidade”, ou a cultura pós-colonial, estaria denegrindo, sendo nociva, às tradições do povo pré-colonial. Os velhos do asilo seriam, talvez, a alegoria do “antigamente”. E aqueles naturais de Maputo, capital de Moçambique, como o investigador, seriam os responsáveis por esse “rompimento”, por assim dizer, da tradição.
    Enfim, é possível observar esse “rompimento de tradição”, no meu ponto de vista, num romance português do século XIX. Trata-se das Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. No enredo desenvolvido por Garrett, percebe-se, de forma clara, as críticas que o narrador-autor dirige aos Liberais, sobretudo aos “barões burguese”. Ou, ainda, as críticas dirigidas ao primeiro ministro de Portugal, da corte de D.José I: o déspota esclarecido Marquês de Pombal.
    Estes são acusados pelo autor-narrador de denegrirem a história e as tradições de Portugal. Destruírem os monumentos históricos. Reformarem de forma bruta a infraestrutura de Lisboa, por exemplo, que fora cruelmente afetada por um terremoto no século XVIII. Ou, ainda, desprezarem Santarém, a primeira capital de Portugal, a grande cidade de tempos áureos de Portugal.
    Peremptoriamente, gostaria de saber se é realmente possível tecer esta analogia do descaso dos modernos com o tradicional, entre as duas obras, embora sejam de autores de escolas literárias, tempos, mentalidades e culturas peremptoriamente distintas.
    Obrigado desde já!

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Publicado às março 1, 2013 por em Resenha e marcado , .

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