LITERARIUM PATHOS

a Quixotesca tarefa de ser Bovary

O Fio das Missangas [Resenha]

06

Quando iniciei esse projeto pessoal de leitura de toda a obra do Mia, não imaginava que ele fosse se arrastar por tanto tempo. O fato é que à medida que eu ia atrasando na leitura das obras já publicadas e na escritura das resenhas daquelas já lidas, Mia foi sendo mais e mais publicado… Acaba inclusive de lançar um novo romance, ao que me parece, primeiro volume de uma trilogia.  À medida o tempo passava, o meu trabalho foi então se acumulando e a divida pessoal para comigo mesmo chegou a um ponto insustentável. É o momento de pagá-la.(Quando escrevi o primeiro rascunho dessa resenha, Mia Couto publicava o primeiro volume da trilogia As Areias do Imperador, atualmente já lançou o segundo volume, intitulado Sombras da Água.)

O livro de contos O fio das missangas há dois anos tem sido uma periódica leitura minha do mês de novembroExplico: Quando há dois anos assumi a disciplina de Língua Portuguesa de um 9º ano de um determinado colégio em que trabalho, lá estava o Mia como leitura obrigatória e tenho desde então obtido resultados comoventes com a leitura compartilhada dessa obra.

O fio das missangas é mais uma reunião de contos das muitas publicadas por Mia Couto. Se engana, no entanto, aqueles que quiserem concluir que por eu afirmar que o livro é mais um dentre tantos, que não há nada nele que o torne especial ou singular. Quando o comparo aos outros volumes dos contos de Mia, uma diferença me salta aos olhos: a agudeza e precisão no trato com o poético, marca de todos os exemplares que compõe esse colar. Não há aparentemente um arranjo que possa unir todas as histórias ali contadas. Encontrar o fio condutor que una todas as miçangas, afinal, faz parte do jogo narrativo dessa obra.

E na esfera do jogo e da brincadeira que desafio qualquer um a deixar-se guiar pela leitura de alguns dos contos como “A Infinita fiadeira”, “As três irmãs”, “O cesto”, “O menino que escrevia versos” ou “O caçador de ausências” por exemplo e não ser tocado pela beleza com que Mia Couto manipula a palavra. Nesses contos, assim como no restante da sua literatura a palavra se torna um objeto-barro, maleável e meticulosamente moldado para que em novos e inusitados formatos ganhem revelo especial.

Já que o intuito primário desses meus relatos é aqui criar uma espécie de registro pessoal de minhas leituras, me é inevitável terminar esse texto (começado a quase mais de um ano) com a memória mais agradável atrelada a leitura desse livro. Sob a sombra de árvore copada, no silêncio morno de uma manhã de novembro, olhos famintos de toda uma turma devorando deliciados as palavras-alimentos de Mia. Obrigado, alunos.


O que já se disse:

Os contos aqui presentes invadem o mundo da mulher, conferindo a ela o direito à palavra e doando significado a seres fadados à nulidade e ao abandono. Enquanto artefatos descartáveis, que são usados e depois eliminados, as imagens femininas são neste livro comparadas aqui a uma saia antiga, ali a um recipiente reservado a guardar alimentos; outras vezes é similar a um fio de missangas. […]

As histórias abrangem diversos tópicos, cada uma delas focando um tema singular. Elas cativam o leitor e o mantêm preso até a conclusão, ou o que parece ser o final. O autor investe em temas como violência, morte, rupturas, insanidade, retaliação, incesto, suicídio, entre outras manifestações próprias do Homem. [Ana Lúcia Santana, do site INFOESCOLA]

 


Em meus post-it:

1

“No tecido, no texto, na panela, as irmãs não mais encontraram espelho. Sucedeu foi um salto na casa, um assalto no peito. As jovens banharam-se, pentearam-se, aromaram-se. Água, pente e perfume: vinganças contra tudo que não viveram. Gilda rimou “vida” com “nudez”, Flornela condimentou afrodisiacamente, Evelina transparentou o vestido. ”

2

“Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito sim, por educação, mas não creio. Minhas lembranças são aves.”

3

“A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime.
Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
– Faço arte.”

 

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Publicado em outubro 11, 2016 por em Uncategorized.

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